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Mudanças climáticas e o valor do seguro agrícola

 

Os seguros para o automóvel e de saúde são contratados por milhões e milhões de pessoas em todo o mundo. É um tipo de serviço curioso: pagamos, mas nunca queremos precisar usar. Afinal, ter que acionar a seguradora é sinal de que algo desagradável aconteceu. De qualquer forma, é um ato de prudência frente aos riscos potenciais que ameaçam aquilo que para nós é valor, seja a saúde ou um bem material. No fim do dia, o que buscamos é a garantia de compensação por eventuais prejuízos que podem nos acontecer.

Alguns registros indicam que este tipo de atividade já acontecia há mais de 2.000 anos na China e na Babilônia, principalmente envolvendo o transporte por parte de comerciantes. Os tempos passaram, as atividades comerciais mudaram e a abertura para novas indústrias criou outros nichos de mercado para a proteção de bens com as devidas adaptações, como no caso do seguro agrícola.

O agricultor é um homem de negócios com um escritório a céu aberto e vulnerável a muitos fatores. Apesar do foco na produção ao fim da safra, as decisões começam muito antes do plantio e perduram por todo o ciclo da cultura, sendo vitais para o alcance da produtividade que levará aos objetivos do negócio. A procedência da semente, o tipo de irrigação e os equipamentos que serão utilizados são alguns dos aspectos que estão sob o poder de decisão do agricultor, mas que mesmo assim podem resultar em uma performance inferior à desejada. Entretanto, uma grande preocupação são os fatores incontroláveis, como é caso dos riscos climáticos.

Historicamente, inúmeros casos associando o clima com perdas de safras inteiras já foram relatados. Isso acontece todos os anos como consequência de chuvas excessivas, períodos de estiagem extensos e diversas outras variações do clima. No início deste ano, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) previu uma redução de 4 milhões de toneladas para a soja brasileira em relação à safra recorde do ano passado devido ao clima, com perdas que podem chegar a R$ 7 bilhões. Consequentemente, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) prevê uma subvenção destinada ao seguro agrícola da ordem de R$ 1 bilhão em 2020, o maior valor já concedido e quase três vezes mais do que a média dos últimos anos. Em 2019 os agricultores tiveram R$ 371 milhões disponíveis para este fim, sendo que na média o governo arca com 35% do custo.

O sistema de cobertura para o agricultor que quer se proteger do clima pode ter diferentes formatos, mas basicamente visa mitigar o prejuízo dos intempéries climáticos, podendo também contribuir para a contratação de operações financeiras - como a tomada de crédito rural em bancos ou na revenda. A apólice baseia-se na produtividade média da região onde se insere a área a ser assegurada, um dado que pode ser fornecido, por exemplo, pelo IBGE. Assim, a seguradora garante o pagamento da diferença entre a produção obtida e a média prevista para aquela região. Sob a cobertura podem estar inúmeros riscos climáticos além de chuva e seca, como geada, granizo, vendaval, tromba d’água, inundação e incêndio. O papel deste serviço é assegurar a lavoura para o agricultor, bem como sua renda, compensando-o na ocasião de variações negativas.

As transformações pelas quais o clima está passando deverão intensificar a demanda por este tipo de seguro. Sabemos que a temperatura do planeta está aumentando, mas os reais desfechos não são totalmente conhecidos. A instabilidade climática é uma constante cada vez mais presente no dia a dia das lavouras, onde a natureza parece apresentar um novo equilíbrio a cada nova safra. A cada novo ciclo, plantas daninhas, insetos praga e doenças também sofrem as influências do clima e mudam seu comportamento. Sabe-se, por exemplo, que o aumento da temperatura acelera o metabolismo e a reprodução de insetos, o que os tornará mais famintos por raízes, folhas e frutos, além de crescerem em número. Nossas armas contra essas pragas terão que ser ainda mais sofisticadas e, de qualquer forma, a cobertura de eventuais danos por parte do seguro agrícola será uma importante medida preventiva se a proteção de cultivos falhar de forma representativa.

Processos 100% efetivos simplesmente não existem; sabemos que sempre teremos perdas em algum grau. Ao aprimorarmos a nossa capacidade de análise de riscos, faremos do seguro agrícola uma grande ferramenta mitigadora e preventiva à disposição do agricultor.

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