Tempo de leitura: 4 minutos

DNA saltador e a tolerância à falta d’água no tomate

 

Agricultura e DNA têm algo em comum?

A resposta é sim, e muito. Afinal, tudo aquilo que colhemos tem suas características dependentes do DNA, do germoplasma da planta. E por mais que tenhamos começado a fazer modificações genéticas há milhares de anos (sem nem saber o que era um gene), à medida que estudamos o DNA, mais conhecemos sobre sua importância para a agricultura.

Mas como isso funciona na prática?

O DNA é uma molécula, mas uma molécula especial pois é nela que está inscrito o código genético. É como se cada gene (um segmento de DNA) fosse uma palavra e, quando todos são colocados juntos, temos o livro que conta a história de cada espécie. Mas essa não é uma história fixa – aliás, muito pelo contrário. Ao longo dos anos, todo ser vivo naturalmente sofre modificações na sua “história genética”. E é justamente isso que o homem vem fazendo há tanto tempo: identificando características de interesse nas plantas domesticadas por ele e, por cruzamento, transgenia ou edição gênica, alterando e selecionando a história de cada vegetal para que eles sejam suas melhores versões.

As modificações naturais são realmente importantes para a adaptação de espécies. Mesmo os transgênicos, ao contrário do que muitos pensam, acontecem espontaneamente na natureza. E essa movimentação ativa de material genético também pode acontecer aos “saltos”, como é o caso dos genes saltadores.

Voltando à nossa analogia do livro, um gene saltador é como se fosse uma palavra do livro que tem a capacidade de gerar uma cópia de si própria e, além disso, de se transportar para outra página ou capítulo do livro. Esses elementos foram descobertos em grãos de milho na década de 1940, mas já foram achados em muitos outros organismos. Antes, acreditava-se que eles eram “DNA lixo”, sem nenhuma função importante. Mas hoje sabe-se que têm um papel muito importante na diversidade genética de muitas espécies, muitas das quais têm relevância para agricultura, além do milho.

É o caso de uma recente descoberta relacionando estresse hídrico e variações genéticas no tomate. Pesquisadores da Universidade de Cambridge observaram que a falta de água aciona a atividade de uma família de genes saltadores que já eram conhecidos por contribuir com o formato e a cor no fruto do tomateiro. Mas qual seria a relação entre o estresse hídrico e a ativação desses genes? Segundo os achados dos pesquisadores, esse seria um mecanismo de defesa da planta, que passaria a buscar formas de alterar seu próprio genoma para conseguir sobreviver quando houvesse condições de falta de água. E isso pode ser muito valioso para a agricultura.

Esses elementos genéticos poderiam ser utilizados de forma controlada em programas de breeding para melhorar o potencial de diversificação dos cultivares. Dessa forma, novas características poderiam ser obtidas mais rapidamente do que as técnicas tradicionais, acelerando o melhoramento genético e barateando os custos de desenvolvimento de variedades de maior valor comercial. E por mais que diferentes características pudessem ser selecionadas, a busca por plantas capazes de manter uma boa produtividade em substratos secos já é interessante em si, ainda mais considerando as instabilidades climáticas que apontam para o aquecimento global.

Com o melhor domínio da história genética das culturas agrícolas, poderemos combinar as necessidades do agro com a genética de plantas com mais precisão, e estaremos mais preparados para construir uma agricultura sustentável e resiliente.

Para mais conteúdos sobre Agricultura Moderna, explore ainda mais nosso site e acesse a nossa página do Facebook.

 

Artigos relacionados