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Biotecnologia agrícola no combate à AIDS

 

A interdisciplinaridade é uma tendência global já há alguns anos. Assim como na agricultura, diversos setores têm se beneficiado da união de diferentes áreas do conhecimento humano e dos novos produtos e serviços que dela surgem.

A biotecnologia de plantas e a saúde humana, por exemplo, andam de mãos dadas há bastante tempo. A humanidade vem utilizando a domesticação de plantas para obter alimentos mais saborosos e nutritivos há milhares de anos e, sim, isso pode ser considerado biotecnologia aplicada à melhoria da nossa saúde. A biotecnologia MODERNA (originada na segunda metade do século XX) só veio agregar ainda mais, possibilitando a produção de insulina por bactérias em grande quantidade para o tratamento do diabetes, a geração do arroz dourado para a suplementação de betacaroteno (essencial para a prevenção de cegueira irreversível em crianças) e, mais recentemente, o desenvolvimento de plantas modificadas que poderão contribuir para o tratamento de portadores de HIV.

O HIV, ou vírus da imunodeficiência humana, é um microrganismo que pode levar indivíduos infectados a desenvolver a AIDS (em português, SIDA: Síndrome da Imuno Deficiência Adquirida), condição que hoje afeta dezenas de milhões de pessoas e que está presente em todos os continentes. Apesar da infecção ainda não ter cura, algumas terapias têm permitido que pacientes convivam com uma baixa quantidade do vírus no corpo e, consequentemente, com mais saúde. E mais recentemente, a biotecnologia de plantas tem mostrado seu potencial como uma ferramenta valiosa nesses avanços.

No Brasil, a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) teve um papel central no desenvolvimento de uma pesquisa bastante interessante para esse campo. Ela teve como objetivo transformar plantas de soja em fábricas para a produção de uma proteína cujos efeitos antivirais já haviam sido comprovados em testes em macacos. A proteína, chamada cianovirina-N e originalmente produzida por algas, é capaz de inibir diferentes linhagens do HIV e, por esse motivo, é muito promissora para a aplicação no tratamento da AIDS em humanos. Vale aqui lembrar que, para ter seu efeito, a proteína não seria ingerida juntamente com a soja usada na alimentação, mas sim purificada da planta (inclusive de partes que não apenas o grão) e usada na formulação de medicamentos.

Essa mesma proteína já havia sido produzida por meio de técnicas da biotecnologia moderna em outros organismos, como bactérias, leveduras e outras plantas. Entretanto, nenhum desses sistemas biológicos se mostrou tão economicamente favorável e com possibilidade de produção em maior escala como a planta de soja. E isso tem, claro, um componente social muito importante. Em alguns países da África, onde 20% da população está infectada pelo HIV, o plantio dessa cultura geneticamente modificada poderá baratear os custos de obtenção dos medicamentos necessários aos pacientes, resultando em melhorias para a saúde pública local. No Brasil, onde a quantidade de novos casos da doença subiu 3% entre 2010 e 2016 (ao contrário do restante do mundo, onde ela caiu 11%), também poderemos nos beneficiar das vantagens que essa inovação da agricultura moderna trará.

Em 2017, o projeto ganhou o prêmio do Consórcio Federal de Laboratórios do Médio-Atlântico (EUA) pela excelência na transferência de tecnologia. Já este ano, o pesquisador da Embrapa que liderou as pesquisas no Brasil, Elíbio Rech, foi formalmente agraciado com o mesmo prêmio.

Esta importante iniciativa foi o resultado de mais de 10 anos de trabalho e de uma parceria com mais três grupos internacionais, nos quais atuaram profissionais com múltiplos conhecimentos e habilidades. Alguém ainda duvida do papel da interdisciplinaridade na evolução da biotecnologia agrícola, da saúde e da nossa sociedade?

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